HEART Score: Definição e Contexto Clínico da Estratificação de Dor Torácica

Samira Mohan (Supriya Ganesh) — Emergency Room Procedure | The Pitt TV Series | ER Explained.com

Introdução

The Pitt — Episódio 3, cena do debriefing após o óbito do Sr. Milton:
"Fizemos um ECG. Fizemos uma troponina. Ele tinha um HEART score de três." — Dr. Robby
"O que isso significa?" — Residente
"1% de chance de um evento cardíaco adverso nos próximos 30 dias. O padrão de cuidado é dar alta com acompanhamento ambulatorial." — Dr. Robby

A morte inesperada do Sr. Milton — que entrou com dor abdominal que parecia ser da vesícula e morreu de angina instável por doença coronariana — gerou um dos momentos mais pedagógicos do Episódio 3. O HEART score de 3 indicava baixo risco. O protocolo foi seguido corretamente. E ainda assim ele morreu.

O HEART score é um dos instrumentos de estratificação de risco mais usados em pronto-socorros do mundo. Entender o que ele avalia, como é calculado e quais são seus limites é fundamental para médicos e para pacientes que passam por avaliação de dor torácica na emergência.

O que é o HEART Score?

O HEART score é uma ferramenta de estratificação de risco para pacientes com dor torácica na emergência, desenvolvida para identificar aqueles com maior probabilidade de ter um evento cardíaco adverso grave — infarto, morte ou necessidade de revascularização — nos próximos 30 dias.

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The Pitt TV series medical | ER Explained

O nome é um acrônimo com os cinco componentes avaliados:

  • H — History (História clínica): características da dor torácica — altamente suspeita de origem isquêmica (2 pontos), moderadamente suspeita (1 ponto), pouco suspeita (0 pontos)
  • E — ECG: alterações eletrocardiográficas — bloqueio de ramo esquerdo ou supradesnivelamento de ST (2 pontos), alterações inespecíficas (1 ponto), ECG normal (0 pontos)
  • A — Age (Idade): acima de 65 anos (2 pontos), 45 a 65 anos (1 ponto), abaixo de 45 anos (0 pontos)
  • R — Risk factors (Fatores de risco): três ou mais fatores de risco cardiovascular ou história de aterosclerose (2 pontos), um ou dois fatores (1 ponto), sem fatores de risco conhecidos (0 pontos)
  • T — Troponin (Troponina): acima de três vezes o limite superior da normalidade (2 pontos), entre uma e três vezes (1 ponto), dentro da normalidade (0 pontos)

A pontuação total varia de 0 a 10, com estratificação em três faixas de risco.

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Causas e Contexto Clínico

O HEART score foi desenvolvido para responder a um dos problemas mais frequentes do pronto-socorro: o paciente com dor torácica de causa incerta.

Na emergência, nem toda dor torácica é infarto. As causas de dor torácica incluem:

  • Síndrome coronariana aguda — STEMI, NSTEMI, angina instável
  • Embolia pulmonar
  • Dissecção aórtica
  • Pericardite ou miocardite
  • Espasmo esofágico
  • Costocondrite
  • Ansiedade e dor torácica funcional

O HEART score é indicado especificamente para dores torácicas de possível origem coronariana, onde o ECG não é diagnóstico de STEMI e a troponina pode estar normal ou levemente elevada. Para STEMIs evidentes pelo ECG, o HEART score não é necessário — a decisão de cateterismo é imediata.

No caso do Sr. Milton, o HEART score de 3 refletia: história moderadamente suspeita (dor abdominal atípica), ECG normal, idade de risco moderado, poucos fatores de risco e troponina normal. O protocolo foi correto — mas a angina instável evoluiu silenciosamente para infarto fatal antes do acompanhamento ambulatorial.

Sinais e Sintomas

O HEART score é aplicado em pacientes com:

  • Dor torácica ou equivalente isquêmico — dor epigástrica, dispneia, dor em mandíbula ou braço esquerdo
  • ECG sem supradesnivelamento de ST diagnóstico
  • Troponina coletada ou em coleta
  • Suspeita clínica de síndrome coronariana aguda sem confirmação diagnóstica imediata

Pacientes com STEMI pelo ECG — como o Sr. Gellin no episódio — não precisam do HEART score: a decisão de reperfusão é tomada pelo ECG de forma autônoma.

Diagnóstico

O cálculo do HEART score integra dados clínicos, eletrocardiográficos e laboratoriais disponíveis na avaliação inicial do pronto-socorro. A interpretação das faixas de risco é:

  • Score 0 a 3 — Baixo risco: menos de 2% de chance de evento adverso em 30 dias. Pode-se considerar alta com acompanhamento ambulatorial — como foi o caso do Sr. Milton, com score 3 e 1% de chance estimada.
  • Score 4 a 6 — Risco intermediário: risco de 12 a 16%. Indicado monitorização, repetição de troponina em 3 a 6 horas e avaliação cardiológica antes da alta.
  • Score 7 a 10 — Alto risco: risco superior a 50%. Internação e cateterismo cardíaco indicados.

O HEART score tem sensibilidade de 96 a 99% para eventos adversos graves em pacientes de baixo risco — o que significa que apenas 1 a 4% dos pacientes com score baixo terão um evento adverso, como ocorreu tragicamente com o Sr. Milton.

Tratamento na Emergência

O HEART score orienta a conduta, não a substitui:

  • Baixo risco (0–3): alta hospitalar com acompanhamento ambulatorial em 24 a 72 horas, orientações sobre sintomas de alarme e retorno imediato se piora
  • Risco intermediário (4–6): observação por 6 a 12 horas, troponina seriada, avaliação cardiológica, teste de esforço ou exame de imagem funcional antes da alta
  • Alto risco (7–10): internação, antiagregação, anticoagulação e cateterismo cardíaco

O HEART score não substitui o julgamento clínico. Pacientes com score baixo mas com apresentação clínica muito suspeita, história familiar forte ou alterações sutis no ECG podem — e devem — ser avaliados com maior cautela.

Prognóstico e Complicações

O HEART score é uma ferramenta validada, amplamente utilizada e com excelente desempenho diagnóstico na identificação de pacientes de baixo risco. No entanto, como qualquer ferramenta estatística, tem limitações:

  • Não detecta 100% dos eventos — a taxa de falso negativo de 1 a 4% é real e clinicamente relevante
  • Depende da qualidade da história clínica colhida — uma história mal documentada subestima o score
  • Não foi validado para populações específicas como mulheres jovens, diabéticos com apresentação atípica ou pacientes com insuficiência renal crônica que elevam troponina por outras causas

O caso do Sr. Milton é um exemplo doloroso e real do limite inerente a qualquer ferramenta probabilística: o 1% de chance não é zero.

Perguntas Frequentes

O HEART score substitui o julgamento médico?

Não. O HEART score é uma ferramenta de apoio à decisão clínica — não um substituto para ela. O médico deve integrar o score com a apresentação clínica completa, a história familiar, o contexto social e sua experiência. Um score de 3 com história muito suspeita pode justificar maior vigilância do que um score de 3 com apresentação claramente atípica.

Por que o Sr. Milton morreu com HEART score de 3?

O HEART score de 3 indicava 1% de risco de evento adverso em 30 dias — não zero. Esse 1% representa pacientes reais, e o Sr. Milton foi um deles. Além disso, seu diagnóstico final foi angina instável por doença coronariana, cuja dor abdominal atípica pode ter subestimado a pontuação da história clínica. O protocolo seguido foi correto segundo o padrão de cuidado disponível — o que não elimina a tragédia, mas contextualiza a decisão médica.

O HEART score é usado somente no pronto-socorro?

Originalmente desenvolvido para o pronto-socorro, o HEART score também tem sido aplicado em unidades de observação e unidades de dor torácica dedicadas. Existem variações como o HEART Pathway, que combina o score com troponina de alta sensibilidade em protocolos de 0 e 3 horas para acelerar o processo de alta segura.

Qual a diferença entre HEART score e TIMI score?

Ambos são ferramentas de estratificação de risco em dor torácica, mas com características diferentes. O TIMI score foi desenvolvido para pacientes já diagnosticados com NSTEMI/angina instável e avalia risco de eventos a curto prazo. O HEART score é aplicado antes do diagnóstico, em qualquer paciente com dor torácica de origem incerta, e é mais simples e específico para o contexto do pronto-socorro.

Conclusão

O HEART score é uma das ferramentas mais valiosas e mais discutidas da medicina de emergência — não porque falha, mas porque nos lembra que medicina é probabilidade, não certeza. Como o Episódio 3 de The Pitt mostrou com precisão dolorosa, seguir o protocolo correto não garante o resultado correto — mas é o que a medicina pode oferecer.

Explore mais em nossa categoria de Termos Técnicos. Leia também sobre o STEMI, a angina instável, o monitor cardíaco e o STEMI anterior.

Disclaimer: Este conteúdo é apenas para fins educacionais e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Em caso de emergência, ligue para o SAMU 192.

Referências

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