O Assassino Disfarçado
"Nós agora sabemos que a dor abdominal dele não era por causa de pedras na vesícula, mas sim de angina instável devido à doença arterial coronariana." — Sala de Emergência
Na medicina de emergência, a dor no peito é a queixa que mais tira o sono dos médicos. O desafio é distinguir entre azia inofensiva, dor muscular e o início de uma catástrofe cardíaca.
Um dos diagnósticos mais traiçoeiros é a Angina Instável. É uma condição perigosa porque frequentemente se esconde atrás de sintomas atípicos (como dor abdominal ou náusea) e exames de sangue que parecem perfeitamente normais.
A angina instável não é um ataque cardíaco — ainda. É o grito desesperado do coração avisando que um infarto massivo é iminente.
A Fisiologia do Quase-Bloqueio
Para entender a angina instável, precisamos olhar para os encanamentos do coração: as artérias coronárias.

Ao longo de anos de má alimentação, tabagismo ou genética, placas de colesterol se acumulam nas paredes dessas artérias. O processo ocorre em três estágios:
- Angina Estável: A artéria está 70% bloqueada. O paciente sente dor no peito apenas quando corre ou sobe escadas (quando o coração precisa de mais sangue). A dor passa com o repouso. É previsível.
- Angina Instável: A placa de colesterol se rompe. Um coágulo de sangue se forma e bloqueia 90% a 99% da artéria. O paciente sente dor no peito mesmo sentado assistindo TV. A dor é imprevisível, dura mais tempo e não melhora com o repouso.
- Infarto do Miocárdio (Ataque Cardíaco): O coágulo bloqueia 100% da artéria. O músculo cardíaco começa a morrer.
A angina instável é o estágio 2. O músculo cardíaco está sufocando por falta de oxigênio (isquemia), mas as células ainda não começaram a morrer de forma irreversível.
O Desafio Diagnóstico na Emergência
Diagnosticar um ataque cardíaco completo (STEMI) é fácil: o eletrocardiograma (ECG) mostra linhas distorcidas massivas. Diagnosticar um infarto menor (NSTEMI) também é simples: o exame de sangue de troponina (uma proteína que vaza de células cardíacas mortas) dá positivo.
A angina instável é o pesadelo do médico porque:
- O ECG frequentemente é perfeitamente normal.
- O exame de sangue de troponina é negativo (porque o músculo está sufocando, mas ainda não morreu).
- Os sintomas podem ser vagos, como indigestão, dor no maxilar ou falta de ar.
Os médicos devem confiar na história do paciente. Se a dor é nova, está piorando ou ocorre em repouso, eles devem tratá-la como uma emergência cardíaca, independentemente dos exames normais.
O Escore HEART e o Protocolo de Tratamento
Para decidir quem vai para casa e quem é internado, os médicos usam o Escore HEART, que avalia História, ECG, Idade (Age), Fatores de Risco e Troponina.
Se o médico suspeitar de angina instável, o tratamento agressivo começa imediatamente para evitar que o bloqueio de 99% se torne 100%:
- Antiagregantes Plaquetários: Aspirina e Clopidogrel (Plavix) para impedir que as plaquetas aumentem o coágulo.
- Anticoagulantes: Heparina intravenosa para afinar o sangue e estabilizar o coágulo existente.
- Vasodilatadores: Nitroglicerina sublingual ou IV para abrir os vasos e deixar o sangue passar.
- Betabloqueadores: Para diminuir a frequência cardíaca, reduzindo a necessidade de oxigênio do coração.
O paciente é então internado na unidade de cardiologia para um teste de esforço ou um cateterismo coronário preventivo.

Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual é a diferença entre dor cardíaca e dor muscular?
A dor muscular (musculoesquelética) geralmente piora quando você pressiona o peito com o dedo, respira fundo ou torce o torso. A dor cardíaca (angina) geralmente não muda com a respiração ou o movimento; é frequentemente descrita como um peso profundo, aperto ou queimação sob o osso do peito, frequentemente irradiando para o braço esquerdo ou mandíbula.
Por que problemas de estômago são confundidos com o coração?
O esôfago, o estômago e o coração compartilham a mesma rede nervosa complexa (o nervo vago e os plexos cardíacos). Quando o coração sofre isquemia, o cérebro frequentemente interpreta mal o sinal, achando que a dor vem do estômago. Isso é especialmente comum em infartos da parede inferior do coração, que repousa diretamente sobre o diafragma e o estômago.
A angina instável pode causar parada cardíaca súbita?
Sim. Mesmo que o músculo cardíaco não tenha morrido, a isquemia severa (falta de oxigênio) irrita o sistema elétrico do coração. Isso pode desencadear arritmias letais, como Fibrilação Ventricular, onde o coração de repente para de bombear e começa a tremer, resultando em morte súbita em segundos.
Conclusão
A angina instável é uma bomba-relógio. É a última chance que a medicina tem de intervir antes que ocorram danos permanentes ao coração. Para os médicos de emergência, exige um alto nível de suspeita clínica, lembrando que exames normais não descartam uma doença coronariana letal. Para os pacientes, a lição é clara: dor no peito nova ou piorada em repouso nunca deve ser ignorada.
Este conteúdo é apenas para fins educacionais e informativos. Não substitui o aconselhamento, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Em caso de emergência médica, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou dirija-se ao pronto-socorro mais próximo.
Referências: [1] American Heart Association (AHA): Unstable Angina [2] StatPearls: Unstable Angina [3] American College of Cardiology (ACC): NSTEMI and Unstable Angina Guidelines [4] UpToDate: Initial evaluation and management of suspected ACS