Introdução
The Pitt — Episódio 3, cena do teste de apneia:
"Para o teste de apneia, mantemos ele com oxigênio a 100%, mas o ventilador não vai fornecer respirações." — Dr. Robby
"Por quanto tempo?" — Familiar
"Dez minutos. Monitoramos o nível de dióxido de carbono. Se subir muito acima de 60, significa que o tronco encefálico não está mandando ele respirar." — Dr. Robby
Essa cena é um dos momentos mais pesados do Episódio 3. O Dr. Robby explica para a família do Nick — um jovem de 18 anos em overdose de fentanil — o que será feito e o que o resultado pode significar. O CO2 de Nick chegou a 82 mmHg sem nenhuma respiração espontânea. O diagnóstico estava confirmado.
O teste de apneia é um procedimento clínico rigoroso, padronizado e com respaldo legal, que compõe o protocolo de diagnóstico de morte encefálica. Entendê-lo — como médico, paciente ou familiar — é fundamental para compreender uma das decisões mais difíceis que uma equipe médica e uma família podem enfrentar juntas.
O que é o Teste de Apneia?
O teste de apneia é um procedimento diagnóstico que avalia a ausência de atividade respiratória espontânea — o drive respiratório — mediada pelo tronco encefálico. É um dos critérios obrigatórios para o diagnóstico de morte encefálica no Brasil e nos Estados Unidos.

O princípio fisiológico é simples e preciso: o tronco encefálico contém os centros respiratórios que respondem ao aumento do CO2 no sangue. Quando o CO2 sobe acima de um limiar crítico — geralmente 60 mmHg — o tronco encefálico saudável dispara o impulso para respirar. Se esse impulso não ocorre mesmo com CO2 muito elevado, significa que o tronco encefálico não está funcionando.
O teste é realizado desconectando temporariamente o ventilador mecânico enquanto se mantém a oferta de oxigênio por outros meios, permitindo que o CO2 suba naturalmente. O paciente é observado durante 8 a 10 minutos por qualquer movimento respiratório espontâneo — expansão torácica, movimento abdominal ou qualquer outra tentativa de respiração.
A ausência total de movimentos respiratórios com CO2 acima de 60 mmHg — como no caso do Nick, que chegou a 82 mmHg — é resultado positivo para morte encefálica.
Causas e Contexto Clínico
O teste de apneia é indicado dentro do protocolo de diagnóstico de morte encefálica, que por sua vez é acionado quando:
- O paciente está em coma profundo de causa conhecida e irreversível
- Foram excluídas causas tratáveis de coma — hipotermia, distúrbios metabólicos graves, efeito de sedativos ou bloqueadores neuromusculares
- O exame neurológico demonstra ausência de todos os reflexos de tronco encefálico: pupilar, oculocefálico, oculovestibular, corneopalpebral, tosse e nauseoso
As causas mais comuns que levam ao protocolo de morte encefálica incluem:
- Anóxia cerebral grave: como no caso do Nick — parada cardiorrespiratória por overdose de fentanil com tempo prolongado de isquemia cerebral.
- Trauma cranioencefálico grave com herniação cerebral transtentorial.
- Acidente vascular cerebral hemorrágico maciço.
- Aneurisma cerebral roto com hemorragia subaracnóidea devastadora.
No episódio, o Dr. Robby foi explícito sobre a expectativa: o CO2 de 82 mmHg sem nenhuma respiração espontânea era praticamente diagnóstico antes mesmo do resultado da cintilografia de perfusão cerebral complementar.
Sinais e Sintomas
O paciente candidato ao teste de apneia apresenta um quadro clínico muito específico, já bem estabelecido antes do teste:
- Coma profundo sem resposta a estímulos — Glasgow 3
- Ausência de reflexo fotomotor bilateral — pupilas fixas e midriáticas
- Ausência de reflexo oculocefálico (olhos de boneca)
- Ausência de reflexo oculovestibular (prova calórica)
- Ausência de reflexo corneopalpebral
- Ausência de reflexo de tosse e nauseoso
- Dependência total de ventilador mecânico para manutenção da respiração
Todos esses critérios devem ser confirmados por dois médicos diferentes — sendo um deles, obrigatoriamente, neurologista ou neurocirurgião — em duas avaliações separadas por intervalo de tempo definido pelo protocolo institucional e pela legislação vigente.
Diagnóstico
O teste de apneia é parte de um protocolo diagnóstico maior. As etapas que o precedem incluem:
Pré-requisitos obrigatórios: temperatura corporal acima de 35°C, pressão sistólica acima de 100 mmHg, ausência de sedativos ou bloqueadores neuromusculares em dose ativa, correção de distúrbios metabólicos graves.
Exame neurológico completo: confirmação de ausência de todos os reflexos de tronco encefálico listados acima, por dois médicos qualificados.
Exames complementares confirmatórios: no Brasil, são obrigatórios exames que demonstrem ausência de atividade elétrica ou de fluxo sanguíneo cerebral — eletroencefalograma (EEG), doppler transcraniano ou cintilografia de perfusão cerebral. A cintilografia, como realizada no caso do Nick, mostra ausência de captação do radiofármaco pelo parênquima cerebral — confirmação de ausência de fluxo sanguíneo.
O teste de apneia é o último passo desse protocolo. Seu resultado é binário: o paciente respira espontaneamente (resultado negativo para morte encefálica) ou não respira (resultado positivo para morte encefálica).
O Procedimento Passo a Passo
O teste de apneia segue um protocolo rigoroso para garantir segurança e validade diagnóstica:
- Confirmar todos os pré-requisitos: temperatura, pressão arterial, ausência de sedação ativa e equilíbrio metabólico.
- Pré-oxigenar o paciente com FiO2 de 100% por 10 minutos no ventilador mecânico para elevar a reserva de oxigênio e evitar dessaturação durante o teste.
- Coletar gasometria arterial basal para confirmar PaCO2 inicial e pH.
- Desconectar o ventilador — ou configurá-lo para não fornecer ventilação ativa — mantendo oferta de O2 por cateter traqueal a 6 L/min.
- Observar o paciente continuamente durante 8 a 10 minutos por qualquer movimento respiratório espontâneo.
- Monitorar continuamente: SpO2, pressão arterial, frequência cardíaca e ritmo cardíaco.
- Coletar nova gasometria arterial ao final do período para confirmar o nível de CO2 atingido.
- Reconectar o ventilador imediatamente após a coleta.
- Interpretar o resultado: ausência de movimentos respiratórios com PaCO2 igual ou acima de 60 mmHg (ou aumento de 20 mmHg acima do basal) é resultado positivo para ausência de drive respiratório do tronco encefálico.
O teste deve ser interrompido imediatamente se ocorrer: dessaturação grave (SpO2 abaixo de 85%), hipotensão refratária, arritmia grave ou qualquer instabilidade hemodinâmica significativa.
Prognóstico e Complicações
O teste de apneia em si não tem prognóstico — é um exame diagnóstico. Seu resultado, quando positivo, confirma a morte encefálica, que é irreversível e equivale legalmente à morte do indivíduo.
As complicações do teste incluem:
- Hipoxemia e dessaturação: a mais frequente. Prevenida pela pré-oxigenação adequada e monitorização contínua.
- Hipotensão arterial: pela hipercapnia progressiva e pela ausência de ventilação com pressão positiva.
- Arritmias cardíacas: especialmente bradicardia e assistolia por hipercapnia extrema.
- Pneumotórax: raramente, pela variação de pressão durante a desconexão do ventilador.
Quando o teste precisa ser interrompido antes da conclusão, exames complementares — como a cintilografia de perfusão cerebral ou o doppler transcraniano — podem ser usados como critério confirmatório substituto.

Perguntas Frequentes
O teste de apneia é o único critério para confirmar a morte encefálica?
Não. No Brasil, a morte encefálica é diagnosticada por um conjunto de critérios obrigatórios definidos pela Resolução CFM nº 2.173/2017: dois exames neurológicos completos realizados por médicos diferentes com intervalo determinado por faixa etária, o teste de apneia e ao menos um exame complementar confirmatório — EEG, doppler transcraniano ou cintilografia. Todos precisam ser concordantes para a confirmação do diagnóstico.
O que acontece com o paciente após o diagnóstico de morte encefálica?
Após a confirmação da morte encefálica, o suporte ventilatório pode ser mantido temporariamente — como ocorreu com o Nick — para preservação dos órgãos enquanto a família é orientada e a equipe de transplante avalia a viabilidade de doação. A retirada do suporte, como mostrado no episódio, é uma decisão médica e familiar, realizada com respeito e cuidado paliativo adequado.
A família pode se recusar ao teste de apneia?
O teste de apneia é parte de um protocolo médico diagnóstico — não é uma intervenção terapêutica que depende de consentimento familiar para ser realizada. No entanto, a comunicação com a família deve ser clara, respeitosa e contínua durante todo o processo. A decisão sobre a continuidade ou retirada do suporte após o diagnóstico pode envolver a família conforme o contexto cultural, legal e ético de cada caso.
Por que o CO2 precisa chegar a 60 mmHg?
O limiar de 60 mmHg foi estabelecido porque representa o estímulo máximo para os centros respiratórios do tronco encefálico. Em pessoas saudáveis, um CO2 entre 50 e 60 mmHg já causaria sensação intensa de sufocamento e esforço respiratório vigoroso. Se o tronco encefálico não responde a esse nível extremo de hipercapnia, é porque ele simplesmente não está funcionando.
Conclusão
O teste de apneia é um dos procedimentos mais simples tecnicamente, mas dos mais complexos humanamente. Como retratado com sensibilidade no Episódio 3 de The Pitt, ele transforma um número — 82 mmHg de CO2 — em uma certeza irreversível, e exige da equipe médica a capacidade de comunicar com clareza e compaixão o que esse número significa.
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Disclaimer: Este conteúdo é apenas para fins educacionais e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Em caso de emergência, ligue para o SAMU 192.